sábado, 27 de julho de 2019

Singularidade


Há poucos dias estava eu na Praça XV, no centro de Florianópolis, esperando minha esposa que entrara num banco para provar que estava viva para a Previdência Social, quando minha atenção focou numa moça dos seus 25 anos que passava embrulhada num cobertor. Como o termômetro ali ao lado acusava 20 graus, pensei tratar-se de uma moradora de rua.
Mas notei que ela estava bem vestida, penteada, postura ereta e que o tal cobertor era bonito demais para ser um cobertor de morador de rua. Dei-me conta que era uma manta peruana e que ela a usava não só como agasalho, mas também para fazer um estilo tal que eu não saberia identificar.
Na sequência, percebi que outros tipos “estranhos” desfilavam pelo calçadão da Catedral Metropolitana e eu ali a observar a diversidade de tipos humanos, cada qual com seu estilo próprio, uns estereotipados e outros absolutamente originais, com seus estilos cunhados no passar dos anos e pelas condições que a vida se lhes apresentou.
Estendi minha percepção para a humanidade e pus-me a pensar na diversidade de tipos humanos que nós, que viemos para a Terra, nos tornamos. E achei interessante constatar a maravilha que é a diversidade humana.
Filhos de Deus e tal qual filhos de pais terrenos somos todos diferentes. Não há dois seres humanos iguais, quer seja na aparência, quer seja na alma.
Cada qual está neste momento vivendo um patamar existencial resultante de todas as suas experiências pretéritas e que o torna um ser único.
As ideologias, que pregam a igualdade entre os homens, desconsideram essa realidade: nós não somos iguais e nem precisamos ser. Precisamos ser nós mesmos. Vivemos, em cada experiência carnal imersos no mundo que escolhemos viver, para aprender com as facilidades e dificuldades dele decorrentes.
Os imensos conjuntos habitacionais construídos pelos governos nas periferias das cidades me causam constrangimento. Como ter casas iguais para pessoas diferentes? Como engenheiro, sempre primei por projetar casas que retratassem a personalidade de cada proprietário e me foi comum ouvir “essa é a casa dos meus sonhos”.
Lembrei das imagens que vinham da China, no período de Mao Tsé Tung, com o chineses todos vestidos com a mesma bata azul, como se fosse um rebanho humano. A sensação que me causa, ainda, uma imagem dessas, é de que aqueles seres não tinham identidade, eram números, gado humano.
A diversidade que eu observava ali na praça era muito mais humana, mais real, mais vibrante e eu sentia como mais autêntica e desejável para a experiência humana na Terra.
Sou cristão e aprendi que o julgamento é uma atitude cruel para com outros, pois pressupõe sabermos qual é a condição ideal de vida dos outros.
A beleza humana está justamente na singularidade que somos, na diversidade das formas, saberes e dons.
Nosso livre arbítrio além de permitir que cada ser se expresse, apresente-se ao mundo tal qual a sua natureza, ainda nos possibilita ser inspiração para que outros cresçam e tragam ao mundo suas contribuições à grande obra da existência.
Somos uma constelação a emanar nossas luzes para o Universo, tal qual a diversidade de flores que encontramos na natureza, cada qual com sua forma, cor e perfume. A natureza nas florestas nos mostra claramente como a vida pulsa na diversidade dos tipos e formas, o verdadeiro Jardim do Éden, onde todas as plantas e animais convivem em harmonia, havendo espaço e condições de vida e progresso para todos.
A monocromia é insossa, entediante e sem graça. A padronização, igualmente rouba a beleza da originalidade.
Ama o próximo como a ti mesmo, disse o Mestre. Isso nos leva a entender que precisamos nos conhecer profundamente para entender quem somos, qual nossa contribuição à humanidade e qual a razão de estarmos aqui e agora, qual nossa luz, nossa força.


Adilson Maestri

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