sexta-feira, 27 de março de 2026

Viver bem para desencarnar em paz


 

Vamos refletir sobre uma das maiores certezas da vida: a morte.

E, paradoxalmente, sobre uma das maiores oportunidades: viver com consciência.

Comparando as obras “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” de Sogyal Rinpoche e o “Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, constatei que as duas tradições espirituais convergem em um ponto essencial:

A vida continua. E mais:
A forma como vivemos determina como atravessamos a morte.

Allan Kardec afirma que: “A alma não perde sua individualidade após a morte.” Portanto, morrer não é desaparecer - é prosseguir.

O livro tibetano nos diz que não sabemos morrer porque nunca aprendemos a viver.

A morte, para a tradição tibetana, assim como para o espiritismo, não é um fim, mas uma passagem, uma transição natural da consciência.

Então, a pergunta que se impõe é: Estamos vivendo de forma que possamos morrer em paz?

- A Negação da Morte na Sociedade Moderna

Nós vivemos numa cultura que evita a morte: não falamos sobre ela; temos medo dela; a escondemos nos hospitais e a tratamos como fracasso.

Mas, segundo Rinpoche, ignorar a morte é ignorar a própria vida.

Ele nos diz que:

“A contemplação da morte não é mórbida - é libertadora.”

Porque quando lembramos que tudo é impermanente: damos mais valor ao presente; amamos melhor; perdoamos mais rápido e nos apegamos menos.

E o Espiritismo esclarece: o espírito é imortal; o corpo é apenas instrumento e a morte é libertação.

O temor da morte diminui à medida que compreendemos a vida espiritual.

E aqui há um ponto de união com o ensinamento tibetano:

O medo da morte nasce do apego à matéria e da ignorância espiritual.

Quando vivemos apenas para o mundo material: tememos perder; tememos deixar; tememos o desconhecido.

Mas quando compreendemos nossa natureza espiritual: confiamos; aceitamos e seguimos em paz.

- A Lei da Impermanência e a Lei do Progresso

No budismo tibetano, fala-se muito da impermanência.

No Espiritismo, encontramos algo semelhante: a Lei do Progresso que diz que tudo evolui: o espírito; as experiências e as vidas sucessivas. Nada é estático.

O que o Oriente chama de impermanência, o Espiritismo amplia com a ideia de evolução contínua pela eternidade através das reencarnações.

Isso nos leva a uma reflexão importante:

Se tudo passa… o que levamos conosco?

Kardec responde: o conhecimento; as virtudes; o amor desenvolvido

Nunca levamos: bens materiais; posição social; poder terreno.

Portanto a vida é uma escola, uma peça de teatro, quando acaba, os atores vão para casa. É o fim de uma estória não é o fim de tudo.

- A Impermanência: a grande mestra

Um dos pilares do ensinamento tibetano é a impermanência.

Tudo muda: o corpo muda; os relacionamentos mudam; as circunstâncias mudam; nada permanece igual para sempre.

E isso não é motivo de tristeza - é sinal de sabedoria.

Quando entendemos profundamente e aceitamos a impermanência: deixamos de resistir à vida; aprendemos a fluir e encontramos paz.

Sofremos não porque tudo muda, mas porque queremos que nada mude.

A impermanência também nos ensina urgência espiritual:

Se tudo passa… o que realmente vale a pena cultivar?

- A Mente, o Espírito e o Pensamento

No livro tibetano, há grande ênfase na natureza da mente.

Sabemos que: o pensamento cria, atrai e molda nosso estado espiritual.

Após o desencarne, continuaremos sendo o que somos.

Se cultivarmos:

·         paz → teremos paz

·         se cultivarmos revoltas → levaremos perturbação

·         se cultivarmos amor → viveremos em harmonia

Se vivemos:

·         com apego → morreremos com apego

·         com paz → morreremos com paz

·         com consciência → morreremos com lucidez

A mente, no momento da morte, influencia a experiência espiritual futura.

Por isso, a importância de: vigiar pensamentos; cultivar serenidade e buscar equilíbrio interior.

Outro ensinamento central é sobre a mente.

Rinpoche afirma que nossa verdadeira natureza é: clara; luminosa e serena, mas vivemos distraídos com: pensamentos constantes; ansiedade; apego e ilusões.

A prática espiritual, especialmente a meditação, tem um objetivo:
reconhecer a natureza da nossa mente

Ele chama isso de “voltar para casa”.

Quando acessamos a serenidade mental: o medo diminui; a morte perde seu poder e a paz surge naturalmente

- O Momento do Desencarne

Segundo as duas tradições o desencarne pode ser tranquilo ou perturbado, pois: depende do grau de apego e depende da evolução moral.

Os espíritos relatam que há confusão para os despreparados e paz para os que viveram com consciência.

Quanto mais materializado o espírito: mais difícil a separação.

Quanto mais espiritualizado: mais suave a passagem.

Isso nos leva a uma verdade essencial: não é a morte que define como seguirá o espírito… mas sim, a vida que ele viveu.

Uma parte muito tocante da obra de Riponche é sobre acompanhar alguém no fim da vida.

Ele sugere: oferecer presença, não desespero; falar com serenidade; evitar perturbações emocionais e transmitir amor e paz.

Às vezes, o maior auxílio não é o que dizemos, mas o estado interior que levamos ao outro.

A pessoa que está partindo percebe mais do que imaginamos.

O Budismo ensina que o momento da morte pede serenidade e o Espiritismo reforça: Podemos ajudar muito quem está partindo com: oração sincera; ambiente de paz; palavras de confiança e evitar desespero.

O Evangelho segundo o Espiritismo nos orienta: a prece é um poderoso auxílio para o espírito.

E mais importante: o nosso estado emocional influencia o espírito dos amigos e parentes que partem.

- Preparação para a Vida Espiritual  

Devemos nos preparar para a morte, vivendo bem.

Algumas práticas importantes para isso:

·         autoconhecimento (decisões mais acertadas)

·         reforma íntima (reconhecer o que não funciona bem e mudar)

·         caridade (ter olhos para o mundo à nossa volta)

·         desapego (entender que nada é meu para sempre)

·         vigilância dos pensamentos (atenção constante)

Jesus nos ensinou:“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Pergunta: que tesouro é esse e onde ele está hoje?

Cada um sabe do seu. Não necessita ser tesouro de ouro e bens. Há amores!

Conclusão

Aprenda a viver - e você saberá morrer.

A morte não é inimiga. Ela é conselheira.

Ela nos lembra: de amar hoje; perdoar agora e de viver com verdade

Tanto as tradições orientais quanto o espiritismo nos dizem:

A morte não é o fim, mas também ambos nos alertam: a vida é responsabilidade nossa.

Cada pensamento, cada escolha, cada atitude… está construindo continuamente o nosso futuro espiritual.

Então, que possamos viver de forma consciente: amando mais; julgando menos; perdoando sempre e confiando em Deus

E quando chegar o momento do desencarne…

que possamos partir como quem apenas atravessa uma porta.

Finalmente deixo uma reflexão:

Se este fosse o último dia da minha vida… eu estaria em paz com a forma como vivi?

Se a resposta for “não”, ainda há tempo.

Porque o maior ensinamento não é sobre o fim…

é sobre o agora.

Que possamos viver com consciência, amar com profundidade, e partir, quando chegar a hora, com serenidade no coração.

Adilson Maestri