Vamos refletir sobre uma das maiores certezas da vida: a morte.
E, paradoxalmente, sobre uma das maiores oportunidades: viver com
consciência.
Comparando as obras “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” de Sogyal
Rinpoche e o
“Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, constatei que as duas tradições
espirituais convergem em um ponto essencial:
A vida continua. E mais:
A forma como vivemos determina como atravessamos a morte.
Allan Kardec afirma que: “A alma não perde sua individualidade após a
morte.” Portanto, morrer não é desaparecer - é prosseguir.
O livro tibetano nos diz que não sabemos morrer porque nunca aprendemos
a viver.
A morte, para a tradição tibetana, assim como para o espiritismo, não é
um fim, mas uma passagem, uma transição natural da consciência.
Então, a pergunta que se impõe é: Estamos vivendo de forma que possamos
morrer em paz?
- A Negação da Morte na Sociedade Moderna
Nós vivemos numa cultura que evita a morte: não falamos sobre ela; temos
medo dela; a escondemos nos hospitais e a tratamos como fracasso.
Mas, segundo Rinpoche, ignorar a morte é ignorar a própria vida.
Ele nos diz que:
“A contemplação da morte não é mórbida - é libertadora.”
Porque quando lembramos que tudo é impermanente: damos mais valor ao presente; amamos melhor; perdoamos mais rápido e nos apegamos menos.
E o Espiritismo esclarece: o espírito é imortal; o corpo é apenas
instrumento e a morte é libertação.
O temor da morte diminui à medida que compreendemos a vida espiritual.
E aqui há um ponto de união com o ensinamento tibetano:
O medo da morte nasce do apego à matéria e da ignorância espiritual.
Quando vivemos apenas para o mundo material: tememos perder; tememos
deixar; tememos o desconhecido.
Mas quando compreendemos nossa natureza espiritual: confiamos; aceitamos e seguimos em paz.
- A Lei da Impermanência e a Lei do Progresso
No budismo tibetano, fala-se muito da impermanência.
No Espiritismo, encontramos algo semelhante: a Lei do Progresso que diz
que tudo evolui: o espírito; as experiências e as vidas sucessivas. Nada é
estático.
O que o Oriente chama de impermanência, o Espiritismo amplia com a ideia
de evolução contínua pela eternidade através das reencarnações.
Isso nos leva a uma reflexão importante:
Se tudo passa… o que levamos conosco?
Kardec responde: o conhecimento; as virtudes; o amor desenvolvido
Nunca levamos: bens materiais; posição social; poder terreno.
Portanto a vida é uma escola, uma peça de teatro, quando acaba, os
atores vão para casa. É o fim de uma estória não é o fim de tudo.
- A Impermanência: a grande mestra
Um dos pilares do ensinamento tibetano é a impermanência.
Tudo muda: o corpo muda; os relacionamentos mudam; as circunstâncias
mudam; nada permanece igual para sempre.
E isso não é motivo de tristeza - é sinal de sabedoria.
Quando entendemos profundamente e aceitamos a impermanência: deixamos de
resistir à vida; aprendemos a fluir e encontramos paz.
Sofremos não porque tudo muda, mas porque queremos que nada mude.
A impermanência também nos ensina urgência espiritual:
Se tudo passa… o que realmente vale a pena
cultivar?
- A Mente, o Espírito e o Pensamento
No livro tibetano, há grande ênfase na natureza da mente.
Sabemos que: o pensamento cria, atrai e molda nosso estado espiritual.
Após o desencarne, continuaremos sendo o que somos.
Se cultivarmos:
·
paz → teremos paz
·
se cultivarmos revoltas → levaremos perturbação
·
se cultivarmos amor → viveremos em harmonia
Se vivemos:
·
com apego → morreremos com apego
·
com paz → morreremos com paz
·
com consciência → morreremos com lucidez
A mente, no
momento da morte, influencia a experiência espiritual futura.
Por isso, a importância de: vigiar pensamentos; cultivar serenidade e buscar
equilíbrio interior.
Outro ensinamento central é sobre a mente.
Rinpoche afirma que nossa verdadeira natureza é: clara; luminosa e serena,
mas vivemos distraídos com: pensamentos constantes; ansiedade; apego e ilusões.
A prática espiritual, especialmente a meditação, tem um objetivo:
reconhecer a natureza da nossa mente
Ele chama isso de “voltar para casa”.
Quando acessamos a serenidade mental: o medo diminui; a morte perde seu
poder e a paz surge naturalmente
- O Momento do
Desencarne
Segundo as duas tradições o desencarne pode ser tranquilo ou perturbado,
pois: depende do grau de apego e depende da evolução moral.
Os espíritos relatam que há confusão para os despreparados e paz para os
que viveram com consciência.
Quanto mais materializado o espírito: mais difícil a separação.
Quanto mais espiritualizado: mais suave a passagem.
Isso nos leva a uma verdade essencial: não é a morte que define como
seguirá o espírito… mas sim, a vida que ele viveu.
Uma parte muito tocante da obra de Riponche é sobre acompanhar alguém no
fim da vida.
Ele sugere: oferecer presença, não desespero; falar com serenidade; evitar
perturbações emocionais e transmitir amor e paz.
Às vezes, o maior auxílio não é o que dizemos, mas o estado interior que
levamos ao outro.
A pessoa que está partindo percebe mais do que imaginamos.
O Budismo ensina que o momento da morte pede serenidade e o Espiritismo
reforça: Podemos ajudar muito quem está partindo com: oração sincera; ambiente
de paz; palavras de confiança e evitar desespero.
O Evangelho segundo o Espiritismo nos orienta: a prece é um poderoso
auxílio para o espírito.
E mais importante: o nosso estado emocional influencia o espírito dos
amigos e parentes que partem.
- Preparação para a Vida Espiritual
Devemos nos preparar para a morte, vivendo bem.
Algumas práticas importantes para isso:
·
autoconhecimento (decisões mais acertadas)
·
reforma íntima (reconhecer o que não funciona bem e
mudar)
·
caridade (ter olhos para o mundo à nossa volta)
·
desapego (entender que nada é meu para sempre)
·
vigilância dos pensamentos (atenção constante)
Jesus nos ensinou:“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu
coração.”
Pergunta: que tesouro é esse e onde ele está hoje?
Cada um sabe do seu. Não necessita ser tesouro de ouro e bens. Há
amores!
Conclusão
Aprenda a viver - e você saberá morrer.
A morte não é inimiga. Ela é conselheira.
Ela nos lembra: de amar hoje; perdoar agora e de viver com verdade
Tanto as tradições orientais quanto o espiritismo nos dizem:
A morte não é o fim, mas também ambos nos alertam: a vida é
responsabilidade nossa.
Cada pensamento, cada escolha, cada atitude… está construindo continuamente
o nosso futuro espiritual.
Então, que possamos viver de forma consciente: amando mais; julgando
menos; perdoando sempre e confiando em Deus
E quando chegar o momento do desencarne…
que possamos partir como quem apenas atravessa uma porta.
Finalmente deixo uma reflexão:
Se este fosse o último dia da minha vida… eu estaria em paz com a forma
como vivi?
Se a resposta for “não”, ainda há tempo.
Porque o maior ensinamento não é sobre o fim…
é sobre o agora.
Que possamos viver com consciência, amar com profundidade, e partir,
quando chegar a hora, com serenidade no coração.
Adilson Maestri

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