Um pai tinha dois filhos. O mais
jovem, certo dia, pediu sua parte da herança. Partiu para uma terra distante e
desperdiçou tudo.
Depois veio a pobreza, a solidão, a
fome. Caindo em si, decidiu voltar para casa. E então acontece algo
extraordinário.
O pai não o recebe com censura. Não
pergunta: “Por que você fez isso?” Não diz: “Eu avisei.” Não exige que ele
pague pelo erro.
O pai simplesmente corre ao encontro
do filho e o abraça.
Talvez seja essa uma das maiores
mensagens de Jesus.
Deus não é
um Pai que fica esperando nossa queda para nos castigar. É um Pai que permanece esperando nosso retorno.
E talvez essa parábola seja menos
sobre um filho que abandonou a casa e muito mais sobre um Pai que nunca abandonou o filho.
Jesus diz: “Caindo em si…” Essa pequena expressão é extraordi-nária. Ele
começa a perceber quem é, o que fez, o caminho que tomou e decide voltar.
Quando voltava para casa e ainda
estava longe, o pai o vê, corre ao seu encontro. Abraça-o. E faz uma festa.
Essa parábola pode revelar muitos
ensinamentos.
Podemos interpretar simbolicamente o
filho mais jovem como o Espírito que deseja experimentar a vida segundo seus
próprios desejos. Ele quer liberdade. Quer conhecer o mundo. Quer viver suas
próprias experiências e aqui encontramos uma questão muito importante: Deus nos dá essa liberdade.
O filho recebeu a sua parte. O pai
não o prendeu. Não disse:
“Você não pode ir.” Ele permitiu que
o filho fizesse sua escolha.
Muitas vezes queremos que Deus impeça
nossos erros. Queremos que Ele retire de nosso caminho todas as dificuldades, mas
as experiências são necessárias justamente para nosso crescimento.
O Pai permite o caminho, mas nunca
abandona o filho.
O jovem partiu para uma terra distante. Onde fica essa terra?
Podemos compreender essa distância
como uma condição espiritual, porque podemos estar fisicamente muito próximos
de Deus e, espiritualmente, muito distantes.
Podemos frequentar um centro espírita,
ler livros espiritualistas e ainda assim viver muito longe do Pai. Porque a
distância espiritual não é medida em quilômetros, é medida pela distância entre
aquilo que sabemos e
aquilo que praticamos.
A terra distante pode ser: o orgulho,
o egoísmo, a vaidade, a ambição, a intolerância, o ressentimento, a
indiferença...
Toda vez que colocamos nossos
interesses pessoais acima de tudo, estamos caminhando para uma terra distante...
O jovem pede sua parte da herança, mas
que herança seria essa, numa interpretação espiritualista?
Podemos pensar que seriam os recursos
que Deus nos oferece:
a inteligência, a liberdade, a
capacidade de amar, a oportunidade de reencarnar, a família, o corpo físico, o
tempo, os talentos,
as experiências.
Recebemos recursos para crescer,
então podemos utilizá-los de maneira construtiva ou desperdiçá-los.
Quantas vezes desperdiçamos essas nossas
“heranças”?
Recebemos tempo e gastamos com coisas
sem importância.
Recebemos inteligência e usamos para
prejudicar.
Recebemos dinheiro e pensamos apenas
em nós.
Recebemos uma família e não
valorizamos.
Recebemos uma oportunidade de
trabalho e reclamamos.
Recebemos saúde e abusamos.
Recebemos uma existência inteira e muitas
vezes, só percebemos seu valor quando estamos diante de alguma dificuldade.
O filho desperdiçar os seus bens pode
representar o desperdício das oportunidades que temos.
Quantas encarnações serão necessárias
para compreendermos aquilo que poderíamos aprender em uma única existência?
Não devemos olhar para isso com
culpa. Jesus, nessa parábola, não nos
convida à culpa. Ele nos convida à responsabilidade.
Existe uma diferença enorme entre
culpa e responsabilidade.
A culpa diz: “Eu sou um fracasso.”
A responsabilidade diz: “Eu errei,
mas posso aprender.”
E essa segunda postura é
profundamente cristã.
Porque sabemos que somos Espíritos em
evolução.
Ninguém está pronto. Ninguém está
perdido para sempre.
Todos estamos aprendendo, estamos em
construção.
Voltemos à parábola: Então chega a
fome. A situação se torna tão difícil que o jovem deseja alimentar-se da comida
dos porcos.
Aqui podemos enxergar uma lei da
vida: Quando nos afastamos dos valores
espirituais, cedo ou tarde sentiremos fome interior.
Podemos ter dinheiro, sucesso, ter
muitas pessoas ao nosso redor e ainda assim sentir uma profunda solidão.
Porque existe uma fome que nenhum
alimento material consegue satisfazer. É a fome de sentido, de amor, de paz, de
Deus.
Caindo em si, decidiu voltar para
casa. “Caindo em si…” Talvez
estas sejam as palavras mais importantes de toda a parábola: O retorno começa
quando despertamos para nós mesmos.
Antes de voltar para casa, o filho
precisou perceber que estava perdido. Isso também acontece conosco.
Às vezes precisamos de uma dificuldade
para enxergar: uma perda, uma separação, uma decepção, uma crise, um fracasso.
E então podemos perguntar: “O que essa experiência está tentando me
ensinar? ” Essa pergunta é fundamental.
Então o filho decide voltar, mas há
uma diferença importante: ele não fica apenas se lamentando, ele se levanta e caminha.
Isso é arrependimento verdadeiro.
Arrependimento não é ficar
eternamente olhando para o passado.
É reconhecer o erro e mudar a
direção, o arrependimento é apenas o começo.
É preciso reparar. É preciso
transformar. É preciso aprender.
Se ferimos alguém, aprendemos
reparar.
Se fomos injustos, aprendemos
corrigir.
Se fomos egoístas, aprendemos a
compartilhar.
Se fomos intolerantes, desenvolvemos
compreensão.
Se fomos orgulhosos, aprendemos sobre
humildade.
O retorno à Casa do Pai não acontece
apenas com palavras.
Agora chegamos ao momento mais
emocionante da parábola.
O filho ainda está vindo longe e o
pai o vê.
Jesus está mostrando algo
extraordinário: Deus nunca deixa de
esperar por nós. Podemos nos afastar. Podemos errar. Podemos cair. Podemos
escolher caminhos equivocados, mas jamais deixamos de ser filhos de Deus.
Não existe distância capaz de apagar
essa filiação.
Observemos também o comportamento do
pai.
O filho chega preparado para dizer:
“Pai, errei. Já não sou mais digno de ser
chamado de teu filho.” Mas o pai não permite que ele termine seu discurso e manda
trazer a melhor roupa. Coloca um anel em seu dedo. Sandálias nos pés e prepara
uma festa.
É como se dissesse: “Você voltou. É isso que importa.”
Que lição extraordinária para nós!
Quantas vezes somos nós que não
perdoamos?
Quantas vezes alguém erra e dizemos: “Eu
nunca vou esquecer.”
Deus nos ensina: O amor deve ser maior que o erro.
Perdoar não significa dizer que o
erro não aconteceu.
Significa não permitir que o erro
continue governando o futuro.
Mas Jesus acrescenta outro
personagem.
O irmão mais velho. Ele fica
indignado. Não entende por que o pai está fazendo uma festa para aquele que
desperdiçou tudo.
E aqui encontramos outra grande
lição: podemos ser o filho que foi embora, mas também podemos ser o filho mais
velho.
Aquele que permaneceu em casa, mas
não aprendeu a amar.
Às vezes fazemos tudo “certo”. Frequentamos
igrejas, trabalhamos, cumprimos nossas obrigações, ajudamos pessoas, mas,
interiormente, carregamos ressentimentos.
E pensamos: “Eu faço tudo certo. Por
que ele recebe tanto?”
O irmão mais velho não consegue
compreender a alegria do pai, porque ainda pensa em termos de merecimento.
O pai pensa em termos de amor.
Aqui podemos estabelecer uma reflexão
espírita. Não estamos aqui pela primeira vez nem pela última vez. Cada
existência oferece oportunidades de aprendizado.
Às vezes avançamos. Às vezes
falhamos. Às vezes repetimos os mesmos erros, mas sempre temos novas
oportunidades.
A reencarnação é, nesse sentido, uma
expressão da misericórdia divina. Deus não diz você errou, acabou, Ele diz tente outra vez.
E oferece novas oportunidades, novos
caminhos, novas experiências, novos encontros, novos aprendizados.
E a Casa do Pai? Não é
necessariamente um lugar. A Casa do Pai está dentro de nós quando encontramos:
paz, amor, humildade, perdão, solidariedade, esperança.
Podemos estar numa mansão e estar
espiritualmente distantes.
Podemos estar numa pequena casa e
sentir Deus muito perto.
A verdadeira volta para casa
acontece dentro de nós.
Talvez devêssemos fazer algumas
perguntas a nós mesmos:
Em que momentos fui o filho pródigo?
Quando me afastei daquilo que eu
sabia ser correto?
Quando troquei valores espirituais
por vantagens materiais?
Quando deixei de perdoar?
Quando fui indiferente à dor de
alguém?
Quando desperdicei uma oportunidade
de fazer o bem?
E depois:
Quando fui
o irmão mais velho?
Quando julguei alguém que estava
tentando mudar?
Quando achei que alguém não merecia
uma segunda oportunidade?
Quando tive dificuldade de me alegrar
com a felicidade do outro?
Talvez Jesus esteja mostrando que os
dois filhos precisam aprender. Um precisa aprender a voltar. O outro precisa
aprender a amar. E o Pai está ensinando os dois.
Jesus poderia ter terminado a
história quando o filho voltou.
Mas colocou o irmão mais velho. Por
quê?
Talvez para mostrar que o perdão
precisa alcançar todos.
O filho que errou precisa aprender a
perdoar a si mesmo. O pai precisa acolher. O irmão precisa vencer o
ressentimento.
Todos precisam crescer. E talvez essa
seja uma das grandes mensagens do Evangelho: Ninguém cresce sozinho.
Somos instrumentos de evolução uns
dos outros.
As pessoas que encontramos em nossa
vida podem ser oportuni-dades de aprendizado. Inclusive aquelas que nos
desafiam.
Talvez exista dentro de nós um pouco
dos dois filhos.
Existe o filho pródigo que deseja
liberdade sem responsabilidade.
E existe o irmão mais velho que
deseja reconhecimento por aquilo que faz. Um busca prazer. O outro busca
mérito.
E o Pai nos chama para algo maior: o amor.
Porque o amor verdadeiro não
pergunta: “Quem merece?”
Ele pergunta: “Como posso ajudar?”
CONCLUSÃO
A parábola do Filho Pródigo talvez
pudesse receber outro nome. Poderia chamar-se: “A Parábola do Pai que Espera.”
Porque o personagem central não é
apenas o filho que partiu.
O pai é a imagem de Deus.
Um Deus que não abandona, que oferece
oportunidades, que respeita nosso livre-arbítrio, que permite que aprendamos,
que espera e principalmente um Deus que
recebe de braços abertos aquele que decide voltar.
Não precisamos ser perfeitos para
voltar.
Precisamos apenas dar o primeiro
passo, levantar, caminhar e voltar para casa.
Que Jesus nos ajude a reconhecer
nossas próprias distâncias.
Que nos dê coragem para retornar.
E, sobretudo, que nos ensine a
receber com amor aqueles que estão tentando voltar.
Porque, no fundo, talvez a maior
verdade da parábola seja esta:
Todos somos
filhos em aprendizado.
Todos
estamos caminhando de volta para a Casa do Pai.
E ninguém
está perdido para sempre.

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